A Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União (CGU) investigam um pastor e outros integrantes da Associação Beneficente Evangélica (ABE), entidade ligada à Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Brasília (ADEB), por suspeitas de irregularidades envolvendo recursos públicos no Distrito Federal.
A organização, fundada em 1984, possui 18 filiais no DF e atua na administração de creches públicas. Dados analisados pelos investigadores indicam que a associação esteve à frente de contratos que somaram aproximadamente R$ 117 milhões com a Secretaria de Educação do Distrito Federal entre 2012 e 2025.
A investigação começou em maio de 2025, após uma denúncia anônima. Desde então, a PF passou a analisar a estrutura administrativa da entidade, contratos, pagamentos, vínculos entre funcionários e familiares, além da relação com empresas que receberam recursos públicos.
Entre os principais nomes investigados está o pastor Manoel Pereira Xavier, apontado no relatório policial como uma pessoa que teria influência sobre a administração da associação. A apuração também cita Maria Marta Xavier, esposa do pastor, que teria exercido funções ligadas às áreas financeira e pedagógica da instituição.
O presidente formal da ABE, pastor Willthimberg Bittencourt da Silva, também é investigado. Segundo os elementos reunidos pela PF, os investigadores suspeitam que a estrutura oficial da organização não refletisse necessariamente quem exercia o controle efetivo sobre suas atividades.
A apuração encontrou ainda diversos vínculos familiares dentro da entidade. Filhos, noras e sobrinhas de pessoas ligadas à administração aparecem entre funcionários, beneficiários de pagamentos ou responsáveis por empresas que mantiveram contratos com a associação.
Um dos contratos sob análise envolve uma empresa de Taguatinga que teria recebido aproximadamente R$ 420 mil em recursos federais. A companhia, que tinha atividade relacionada ao comércio de papelaria, também passou a apresentar serviços ligados ao ensino de música.
O dinheiro fazia parte de aproximadamente R$ 850 mil recebidos pela ABE por meio de dois convênios firmados com ministérios federais em 2024. Os recursos eram destinados a ações de capacitação e projetos culturais.
Além das suspeitas relacionadas aos contratos, os investigadores analisam possíveis irregularidades trabalhistas. O relatório aponta situações envolvendo demissões e recontratações, diferenças salariais, contratações entre pessoas ligadas por relações familiares e outras movimentações consideradas incompatíveis com a finalidade dos recursos.
A movimentação financeira da entidade também entrou no radar da investigação. A PF cita transações em dinheiro vivo e despesas que chamaram atenção durante a análise dos recursos administrados pela associação.
Outro dado levantado no procedimento é que a ABE acumulou uma dívida ativa com a União superior a R$ 9,5 milhões entre 2018 e 2023. A entidade também possui processos na Justiça do Trabalho.
Ao todo, 12 pessoas são investigadas no caso. O inquérito continua em andamento, com análise de documentos, informações financeiras e depoimentos. Em julho deste ano, testemunhas começaram a ser ouvidas pela Polícia Federal.
Os órgãos públicos envolvidos afirmaram que acompanham a execução e a prestação de contas dos contratos e convênios firmados com a associação. O Ministério da Cultura informou que analisa as prestações de contas relacionadas aos instrumentos destinados às oficinas de música, enquanto o Ministério do Trabalho e Emprego afirmou que poderá adotar as medidas cabíveis caso sejam constatadas irregularidades.
Como a investigação ainda não foi concluída, as suspeitas apuradas pela PF e pela CGU ainda não representam condenação dos envolvidos.
Fonte: Metrópoles

