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O Impacto Devastador do Tarifaço de 50% na Fruticultura do Vale do São Francisco

O Vale do São Francisco, uma região de vital importância para a fruticultura brasileira, enfrenta um cenário de incerteza e apreensão. A recente imposição de uma tarifa de 50% sobre as exportações de frutas para os Estados Unidos ameaça desestabilizar um setor que é pilar da economia local e fonte de milhares de empregos.

Já na quarta-feira (30/7), o presidente Donald Trump assinou o decreto que impõe tarifa de 50% ao Brasil, mas com várias exceções, incluindo aeronaves, suco de laranja e petróleo. As frutas, porém, não foram beneficiadas.

Pequenos produtores que abastecem o mercado nacional e outros países já veem suas mangas encalharem e o preço desabar — como a produção que ia aos EUA já está sendo redirecionada, o mercado de manga começa a superlotar do produto. Mesmo antes de a tarifa entrar em vigor, o Vale do São Francisco, principal região produtora e exportadora da fruta no país, já sente os efeitos da guerra comercial — e não só entre os produtores que exportam diretamente aos EUA.

A região é responsável por uma parcela significativa das frutas exportadas pelo país, com destaque para a manga e a uva. Solos profundos e bem drenados, combinados com a irrigação, permitem até 2,5 safras anuais, garantindo uma produção contínua e de alta qualidade .

Das mangas produzidas no Vale de São Francisco, 92% vão para exportação, segundo o Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina (SPR), que representa o setor.   A manga, em particular, continua a liderar as exportações, com um volume de 266 mil toneladas em 2023 .Em 2024, o Brasil exportou 258 mil toneladas de manga, faturando US$ 349,8 milhões (R$ 1,95 bilhão), segundo dados reunidos pelo Observatório da Manga da Embrapa. Isso faz da manga a fruta brasileira mais vendida no mundo.

A fruticultura irrigada não apenas impulsiona a economia local, mas também atrai investimentos e gera desenvolvimento . O eixo Petrolina-Juazeiro, em particular, é o maior polo de fruticultura do Brasil, com a uva de mesa e a manga liderando a produção e exportação .

Mas a produção com foco na manga exportada aos EUA é mais cara e concentrada em três meses do ano, justamente a partir de agora.

Os americanos costumam comprar mangas de vários países conforme a sazonalidade da colheita. A janela brasileira é em agosto, setembro e outubro.

Para vender aos EUA, os produtores precisam plantar principalmente a manga do tipo tommy, a preferida dos americanos.

Além disso, precisam passar por uma série de inspeções e certificações exigidas, especialmente sobre a presença da mosca-da-fruta nas plantações, e serem mergulhadas num tanque a 60 graus Celsius para eliminar larvas. Na prática, é mais caro produzir para eles.

“Ou seja, fica difícil o produtor mandar essa fruta para outros mercados. Além disso, o volume nesta época para os EUA é muito grande e já está causando baixa nos preços no mercado interno e em outros países”, diz Jailson Lira, presidente do SPR.

O produtor Eduardo Nakahara avalia que, se mantidas, as tarifas terão grande impacto em toda a economia da região do Vale do São Francisco, uma das regiões mais prósperas do sertão nordestino, justamente devido à agricultura irrigada que produz mangas, uvas e outras frutas.

A expectativa do Vale do São Francisco em 2025 era exportar 36,8 mil toneladas de manga aos EUA, em 2,5 mil contêineres que saem dos portos de Salvador (BA) e Pecém (CE) até outubro.

O faturamento desse comércio com os EUA seria no patamar do ano passado, de US$ 45,8 milhões (R$ 255 milhões), segundo previsão do SPR.

A imposição de uma tarifa de 50% pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, incluindo café, carnes e frutas (com exceção do suco de laranja), representa um duro golpe para os exportadores do Vale do São Francisco . Antes, a tarifa era de 10%, e o aumento para 50% a partir de 6 de agosto inviabiliza financeiramente a exportação de frutas como manga e uva para o mercado americano.

Produtores de manga da região já calculam perdas de R 500 milhões (cerca de R$ 2,7 bilhões) em exportações por ano . Com a tarifa, os exportadores podem perder até 70% de suas vendas para os EUA, um mercado crucial para a fruticultura local .

O setor de frutas do Vale do São Francisco alerta para um impacto devastador, com a possibilidade de as frutas apodrecerem no pé, caso não haja alternativas para escoar a produção . A competitividade dos produtos brasileiros é drasticamente
reduzida, e os compradores dificilmente aceitarão uma alta de preços que absorva essa tarifa

As consequências do tarifaço de 50% se estendem muito além das fazendas do Vale do São Francisco, gerando um efeito em cadeia que pode impactar toda a economia regional e nacional. O setor de fruticultura na região gera cerca de 250 mil empregosdiretos e 950 mil indiretos . A inviabilização das exportações para os EUA pode levar a demissões em massa, afetando diretamente a renda e a qualidade de vida de milhares de famílias.

Além do impacto social, a economia local sofrerá com a redução do fluxo de capital. Menos exportações significam menos divisas entrando no país, o que pode desvalorizar a moeda e encarecer produtos importados. A cadeia de suprimentos, que envolve
desde a produção de insumos agrícolas até o transporte e a logística, também será severamente afetada. Empresas de embalagens, transportadoras e prestadores de serviços relacionados à exportação sentirão a queda na demanda.

O risco de pragas, caso as frutas não sejam colhidas, é outra preocupação séria. Frutas apodrecendo no campo podem atrair insetos e doenças, comprometendo futuras safras e exigindo investimentos adicionais em controle de pragas. Isso adiciona uma
camada de complexidade e custo para os produtores, que já enfrentam um cenário desafiador.

O mercado interno, embora importante, não possui demanda suficiente para absorver toda a produção que seria destinada à exportação . Isso pode levar a uma superoferta de frutas, derrubando os preços no mercado doméstico e reduzindo ainda mais a rentabilidade dos produtores. A busca por novos mercados se torna urgente, mas a reorientação de fluxos comerciais é um processo complexo e demorado.

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