O filme foi inspirado no livro de mesmo nome, em que Marcelo Rubens Paiva revisitou suas próprias memórias, sua infância e o vínculo com a mãe. A obra ainda aborda o período da ditadura militar.
“Ainda Estou Aqui” venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional neste domingo (2). Foi a primeira vez que uma produção brasileira ganhou a estatueta mais importante do cinema.
O crime contra Rubens Paiva não foi esquecido por causa da obstinação e coragem da viúva, Eunice Paiva, que durante anos lutou pelo reconhecimento oficial da morte do marido e para que o governo ditatorial fosse responsabilizado. O primeiro objetivo foi alcançado quando ela ainda estava viva. O segundo, só no ano passado, seis anos após a morte de Eunice.
Essa determinação inspirou os filhos.
Vera Paiva trabalha desde 2014 na Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, da qual Eunice fez parte, em 1996. Em entrevista à Folha de São Paulo, Vera deu uma amostra do poder de análise da mãe: “Ela sempre disse que a violência contra nossa família era uma violência contra o Brasil, porque era o início do momento em que a tática de desaparecimento político começava a ficar clara”.
Marcelo Rubens Paiva atuou em outra frente. Escritor sensível e talentoso, descreveu o sofrimento da família em um livro excepcional. A visão humana e nada panfletária do filho que vê o pai sumir para sempre e a mãe assumir sozinha a defesa do clã contra a ditadura arrebatou os leitores.
A obra, por sua vez, inspirou o diretor Walter Salles, amigo da família, a fazer o filme “Ainda estou aqui”, que emocionou milhões de espectadores e ganhou neste domingo (2) o Oscar de melhor filme estrangeiro.
Não se tata de aval gringo para a película, que o público brasileiro já havia transformado em sucesso. Trata-se de mostrar ao mundo a crueldade da ditadura que fez tantos sofrerem no país e que espalhou sementes de maldade que desabrocham até hoje.
O efeito colateral dessa trajetória firme da família em busca da recuperação da memória sobre o caso é que a história de Rubens Paiva pode fazer com que 18 outros processos semelhantes, afetados indevidamente pela Lei de Anistia, possam ser reabertos.

