A derrota do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas eleições de terça-feira (3), que fez os republicanos perderem a maioria na Câmara e no Senado, pode frear a política de intervenções de Washington na América Latina. Para especialistas, o resultado também pode estimular um acordo com o Brasil sobre as tarifas comerciais.
A política externa de Trump defende a “proeminência” dos EUA na região, com medidas para barrar a influência econômica da China nos países latino-americanos e caribenhos. Essa linha foi marcada pela invasão da Venezuela e pela captura do presidente Nicolás Maduro em janeiro de 2026, seguidas de um acordo petroleiro com Caracas.
Outra iniciativa do segundo mandato é o Escudo das Américas. O programa foi criado sob a justificativa de combater os cartéis de drogas, mas tem sido apontado como instrumento de interferência dos EUA na região.
A professora de Relações Internacionais Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), avalia que um Congresso de maioria democrata vai impor limites a Trump. Ela cita a autorização de gastos para ações no exterior e a abertura de investigações contra membros do Executivo. Na área da defesa, segundo a professora, o Congresso tende a reduzir os recursos, o que pode atingir o próprio Escudo das Américas. “Pode vir a representar um freio para interromper essas políticas intervencionistas”, avalia.
O tarifaço aplicado pelo governo Trump contra o Brasil é interpretado pelo governo brasileiro como uma interferência política que mirou as eleições de outubro a favor do adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O doutor em Ciência Política Juliano Machado Pires avalia que a derrota eleitoral deve funcionar como incentivo para Washington negociar. “Comprar briga com o Brasil neste momento não faz o menor sentido”, afirma.
Pires lembra que os EUA têm interesses no Brasil em várias áreas, como tarifas, terras raras e data centers. Ele também acredita que o secretário de Estado, Marco Rubio, responsável pela política externa, deve ficar mais ocupado dando explicações ao Congresso. O cientista político não descarta, porém, que o governo Trump busque criar “factóides” no exterior para desviar a atenção de problemas internos.
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