O ex-ministro da Economia Paulo Guedes teve atuação próxima à OnilX, empresa de criptomoedas que foi alvo de uma ordem de suspensão (stop order) da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e atualmente enfrenta mais de uma centena de processos judiciais movidos por investidores.
Segundo levantamento publicado pelo Metrópoles, investidores afirmam ter aplicado milhões de reais no grupo após receberem promessas de rendimentos de até 2,8% ao mês e de alta liquidez. Parte deles relata dificuldades para resgatar os valores investidos e levanta suspeitas de que teria sido vítima de um esquema de pirâmide financeira. As acusações, porém, são atribuídas aos investidores e não representam uma conclusão judicial sobre a empresa.
Guedes, que foi ministro da Economia durante o governo Jair Bolsonaro, participava de palestras, reuniões e encontros com investidores ligados à OnilX. Sua imagem também foi utilizada em materiais de divulgação da empresa. Em uma publicação feita pelo grupo, o ex-ministro aparece ao lado do empresário Fábio Lino e de executivos da Visa durante uma reunião descrita como estratégica para discutir o uso de stablecoins.
Apesar da relação com a empresa, Paulo Guedes não aparece no quadro societário da OnilX. Procurado pelo Metrópoles, ele não se manifestou. Fábio Lino também não respondeu aos questionamentos sobre a contratação do ex-ministro e os processos judiciais.
Uma das ações movidas contra a empresa envolve um casal que busca recuperar R$ 876,5 mil. Segundo a petição inicial, os investidores afirmam que fizeram novos aportes após participarem de uma reunião com Guedes na sede da OnilX, em abril de 2026. Quatro meses depois, em agosto, o casal teria tentado realizar o resgate dos recursos sem sucesso.
Em outro processo, uma assessora da OnilX teria citado a presença de Paulo Guedes no escritório da empresa em São Paulo para tentar transmitir segurança a um potencial investidor. De acordo com a transcrição apresentada na ação, a profissional afirmava que poderia marcar reuniões com o ex-ministro para investidores interessados em aplicar valores superiores a R$ 3 milhões.
A atuação de Guedes também apareceu em eventos públicos da empresa. Em um vídeo obtido pela coluna, ele elogia a atuação da OnilX no mercado de ativos digitais e afirma que os avanços tecnológicos ampliariam a importância da companhia nesse segmento.
CVM DETERMINOU SUSPENSÃO DE OFERTAS
Em 12 de janeiro de 2026, a CVM publicou o Ato Declaratório nº 24.680, determinando a suspensão imediata da oferta pública de serviços de intermediação de valores mobiliários pela OnilX e empresas relacionadas.
Segundo a autarquia, o grupo não possuía autorização para atuar como intermediário de valores mobiliários, assessor de investimentos ou para captar recursos de investidores nas condições identificadas.
A CVM apontou contratos padronizados com promessa de rentabilidade fixa diária ou mensal e operações de arbitragem em moedas estrangeiras que, segundo análises técnicas da autarquia, poderiam caracterizar contratos de investimento coletivo sujeitos à regulamentação do mercado de capitais.
Após a decisão, a advogada Anne Caroline Marciquevik passou a representar a OnilX em reuniões com a CVM. Ela havia sido assessora especial de Paulo Guedes durante o governo Bolsonaro e atualmente trabalha próxima ao ex-ministro.
Segundo dados compilados pela Agenda Transparente, da ONG Fiquem Sabendo, Marciquevik participou de seis reuniões com autoridades da CVM relacionadas ao caso. Em 1º de abril, o colegiado da autarquia analisou o recurso apresentado pela empresa e, por maioria, manteve a ordem de suspensão.
Na mesma decisão, a CVM esclareceu que a medida não abrangia a simples intermediação de criptoativos como Bitcoin, Ethereum e USDT quando essas operações não estivessem associadas a promessas de rendimento ou contratos de investimento.
MAIS DE 100 PROCESSOS
O Metrópoles identificou 108 ações judiciais apresentadas contra o grupo entre 12 de junho e 10 de setembro de 2026. Os processos estão distribuídos por diferentes estados brasileiros e envolvem investidores que buscam recuperar recursos aplicados na empresa.
A OnilX afirma, em nota publicada em seu site, que é uma empresa regular, com CNPJ ativo, sede no Brasil e aproximadamente cinco anos de atuação no mercado de ativos virtuais.
A companhia sustenta que trabalha com compra, venda, troca, intermediação e custódia de criptomoedas e afirma que a decisão da CVM não representa uma proibição geral de suas atividades. Segundo a empresa, a determinação da autarquia estaria relacionada especificamente a operações que possam ser caracterizadas como oferta ou intermediação de valores mobiliários.
A OnilX também nega atuar como gestora de investimentos, oferecer contratos de investimento coletivo ou prometer rentabilidade fixa.
Paulo Guedes e Fábio Lino foram procurados pelo Metrópoles para comentar a relação entre o ex-ministro e a empresa, além das acusações feitas por investidores, mas não se manifestaram.
Fonte: Metrópoles

